Ramalho Eanes louva Joaquim Letria
do PREC (Processo Revolucionário em Curso), na caixa de ressonância do país que era a RTP, para onde fora convidado por Álvaro Guerra devido ao seu reconhecido mérito profissional. Viviam-se tempos difíceis, em que os poderes políticos partidários tentavam apossar-se dos meios de comunicação social, instalando, neles, homens da sua confiança. Havia, então, como que uma subserviência partidária entre os jornalistas, o que, aliás, de alguma maneira, se percebe, dado o afastamento das oposições da opinião pública e o tratamento dispensado pelo anterior poder político aos jornalistas.
Essa fidelidade à função social do jornalismo valeu-lhe perseguições e incompreensões. Foi demitido da RTP, no período do General Spínola, por causa de um programa incómodo, fiz questão de esperá-lo à porta de casa, para o convidar a regressar à televisão e restabelecer uma informação isenta. Mais tarde, quando apresentei a minha demissão da direcção da RTP, após o 11 de Março, e em pleno clima de suspeição, Joaquim Letria esteve, ostensivamente, presente no jantar de despedida que os colaboradores da RTP me ofereceram, desafiando, sem receios, o clima inquisitorial da época.
Novembro de 1975, cuja presença me trouxe um confortante alento. Anos mais tarde, quando o projecto de lançamento do diário Diário da Manhã abortou, devido a desentendimentos empresariais, demonstrou a dimensão da sua dignidade profissional ao aceitar, sem qualquer complexo de grandeza, regressar ao trabalho de rua como repórter da ANOP.
A OLHAR para o TETO - Falatório
O artigo de opinião a que se refere, intitulado "Falatório", foi escrito por Joaquim Letria e publicado originalmente a 19 de dezembro de 2014 na revista Notícias TV (um suplemento semanal de televisão que, na altura, acompanhava as edições de sexta-feira do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias).
Nesse texto em específico, escrito num período em que o jornalista se encontrava em franca recuperação de problemas de saúde, Joaquim Letria abordou de forma muito descontraída, despretensiosa e humana a forma como se deve encarar cada momento e fase da vida. O artigo acabou por ser muito partilhado na época, servindo quase como uma "lição de vida e de bem comunicar" para os seus leitores e alunos da Universidade Sénior.
O artigo "Falatório" de Joaquim Letria critica a tendência da sociedade moderna de substituir o diálogo profundo pelo ruído constante e pelas reações superficiais. Esta reflexão reflete a vasta experiência do jornalista como repórter e pedagogo na denúncia da perda de qualidade nas relações humanas e na comunicação social.
Bem Haja Professor Letria
LB
FALATÓRIO OPINIÃO
DOBRAR-ME A ESPINHA JÁ DEVEM TER APRENDIDO QUE NÃO VALE A PENA. PARTIR-ME A ESPINHA JÁ É OUTRO NEGÓCIO MAIS SÉRIO E PRINCIPALMENTE MAIS DOLOROSO.
A OLHAR PARA O TETO
Há três semanas que passo os dias a olhar para o teto. Não é por esperanças de um qualquer sinal sobrenatural mas pelo simples facto de uma queda graciosamente promovida e oferecida pelas infraestruturas da Fertagus, minha querida transportadora em ferro carris, me ter precipitado nas urgências de Santa Maria com o beneplácito competente e atento do INEM que me avisou e evitou que os estragos fossem bem piores.
Houve um médico que simpaticamente anteviu que os meus próximos meses seriam passados a olhar para o teto, já sem qualquer carga maliciosa que dantes, "olhar para o teto" podia acarretar. Entre TAC, RX, análises e previsões cheguei a antever-me no papel de super-homem, destronando Christopher Reeve na sua aristocrática e desportiva queda de cavalo.
Operado com notável eficiência pelo médico espanhol Dr. António Tirado, membro integrante da importante "equipa da coluna" do Hospital de Santa Maria, que me negou um final tão distinto como o simpático ator, empurrando-me para os tristes fim de dias que estamos condenados a ter uns com os outros.
Dobrar-me a espinha já devem ter aprendido que não vale a pena. Partir-me a espinha como aqui se vê já é outro negócio mais sério e principalmente mais doloroso.
É, portanto, todo partido que tenho a honra de enviar ao distinto Diário de Notícias esta crónica como há muitos anos já não me acontecia.
Espero que o texto chegue a tempo e a propósito, que os meus queridos leitores me revejam direito e com saudades, para da próxima vez nos podermos rir muito por esta e por outras que certamente nos espreitam ao virar de cada esquina.
Joaquim Letria


