Homenagem a Joaquim Letria

Ramalho Eanes louva Joaquim Letria

Joaquim Letria
Um Homem de Intransigência Democrática
A morte de Joaquim Letria constitui uma perda profunda para o Portugal democrático e para a cultura da informação livre. Neste momento da partida de uma das figuras mais distintas e marcantes do nosso jornalismo, importa recordar que os maiores entre nós não morrem verdadeiramente; permanecem na memória colectiva, no exemplo ético e na forma em que serviram o País. A República e a democracia são-lhe devedores, pelo seu papel decisivo no processo revolucionário e na consolidação de uma imprensa rigorosa, independente e pluralista.
Conheci Joaquim Letria após o 25 de Abril de 1974, nos conturbados tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), na caixa de ressonância do país que era a RTP, para onde fora convidado por Álvaro Guerra devido ao seu reconhecido mérito profissional. Viviam-se tempos difíceis, em que os poderes políticos partidários tentavam apossar-se dos meios de comunicação social, instalando, neles, homens da sua confiança. Havia, então, como que uma subserviência partidária entre os jornalistas, o que, aliás, de alguma maneira, se percebe, dado o afastamento das oposições da opinião pública e o tratamento dispensado pelo anterior poder político aos jornalistas.
Nesse ambiente de extrema perturbação e forte pressão ideológica, Joaquim Letria – recém-chegado da BBC (onde trabalhou entre 1970 e 1973) e com o prestígio firmado no Diário de Lisboa, na Associated Press, no Rádio Clube Português, na Flama e no Expresso – decidiu erguer, contra ventos e marés, uma informação televisiva de excelência, jornalisticamente correcta e intransigentemente subordinada aos valores humanistas e à verdade.
Numa altura em que tantas personalidades vacilavam ou cederam à facilidade dos mimetismos ideológicos, Joaquim Letria revelou a têmpera do seu carácter. Assumiu piamente homem de esquerda desde a juventude – tendo sido militante do PCP no liceu, líder da comissão pró-associação e dirigente de greves estudantis –, recusou, terminantemente, ser arregimentado por partidos ou conceder favores políticos que pudessem beliscar a verdade factual. A sua independência era negociável. Jamais se amedrontou perante manifestações ruidosas ou ameaças de facções extremadas.
Ficou célebre o episódio em que, perante uma ruidosa manifestação do MRPP à porta da RTP, que o apodava de «social-fascista», recusou sair de carro, fazendo questão de enfrentar a rua a pé. Da mesma forma, no dramático 11 de Março de 1975, quando regressávamos de uma reunião do MFA (Movimento das Forças Armadas) e fomos confrontados com uma multidão hostil a exigir a minha «cabeça», acompanhou-me a pé, sem hesitar, nesse difícil percurso.
Como entrevistador, Joaquim Letria introduziu no ecrã um modelo de frontalidade e exigência. Tratava os interlocutores com urbano respeito, mas formulava perguntas directas e incómodas; perante respostas evasivas, repetia a mesma questão tantas vezes quantas as necessárias, independentemente do estatuto político ou social do entrevistado.
Essa fidelidade à função social do jornalismo valeu-lhe perseguições e incompreensões. Foi demitido da RTP, no período do General Spínola, por causa de um programa incómodo, fiz questão de esperá-lo à porta de casa, para o convidar a regressar à televisão e restabelecer uma informação isenta. Mais tarde, quando apresentei a minha demissão da direcção da RTP, após o 11 de Março, e em pleno clima de suspeição, Joaquim Letria esteve, ostensivamente, presente no jantar de despedida que os colaboradores da RTP me ofereceram, desafiando, sem receios, o clima inquisitorial da época.
A sua energia criadora levou-o, depois, a novos e audaciosos empreendimentos. Foi um dos principais fundadores e director de O Jornal – projecto inovador de extraordinária relevância sociocultural e política, que marcou a imprensa democrática em Portugal. Recordo, com viva emoção, a visita que me fez no Posto de Comando na Amadora durante o 25 de Novembro de 1975, cuja presença me trouxe um confortante alento. Anos mais tarde, quando o projecto de lançamento do diário Diário da Manhã abortou, devido a desentendimentos empresariais, demonstrou a dimensão da sua dignidade profissional ao aceitar, sem qualquer complexo de grandeza, regressar ao trabalho de rua como repórter da ANOP.
Tive o privilégio de contar com a sua estreita colaboração na Presidência da República. Após ter sido decisivo no apoio à minha candidatura – preparando a minha adaptação aos debates de televisão, às intervenções no rádio e à linguagem dos comícios –, aceitou o melindroso cargo de Assessor de Imprensa e Porta-Voz de Belém. Joaquim Letria reestruturou, com eficiência, os serviços de comunicação da Presidência, produzindo análises diárias da imprensa que antecediam as tendências da opinião pública e previam a evolução dos processos mediáticos. A sua cultura cosmopolita, a sua intuição analítica e o seu conhecimento rigoroso da política internacional foram apoios determinantes na tomada de decisões sensíveis na preparação das viagens de Estado.
Joaquim Letria pertenceu àquele raro escol de cidadãos para quem a profissão é um dever ético e a cidadania uma exigência permanente. A sua memória evoca, com propriedade, a máxima de Ernesto Sábato, que ele próprio apreciava: «Há uma maneira de contribuir para a mudança, é não se resignar». Foi recusando a resignação, combatendo o comodismo e servindo a verdade sem concessões que Joaquim Letria escreveu uma das páginas mais brilhantes e honradas do nosso jornalismo e da democracia portuguesa.
                          António Ramalho Eanes

A OLHAR para o TETO - Falatório

O artigo de opinião a que se refere, intitulado "Falatório", foi escrito por Joaquim Letria e publicado originalmente a 19 de dezembro de 2014 na revista Notícias TV (um suplemento semanal de televisão que, na altura, acompanhava as edições de sexta-feira do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias).
Nesse texto em específico, escrito num período em que o jornalista se encontrava em franca recuperação de problemas de saúde, Joaquim Letria abordou de forma muito descontraída, despretensiosa e humana a forma como se deve encarar cada momento e fase da vida. O artigo acabou por ser muito partilhado na época, servindo quase como uma "lição de vida e de bem comunicar" para os seus leitores e alunos da Universidade Sénior.
O artigo "Falatório" de Joaquim Letria critica a tendência da sociedade moderna de substituir o diálogo profundo pelo ruído constante e pelas reações superficiais. Esta reflexão reflete a vasta experiência do jornalista como repórter e pedagogo na denúncia da perda de qualidade nas relações humanas e na comunicação social.

Bem Haja Professor Letria

LB

FALATÓRIO OPINIÃO
DOBRAR-ME A ESPINHA JÁ DEVEM TER APRENDIDO QUE NÃO VALE A PENA. PARTIR-ME A ESPINHA JÁ É OUTRO NEGÓCIO MAIS SÉRIO E PRINCIPALMENTE MAIS DOLOROSO.

A OLHAR PARA O TETO

Há três semanas que passo os dias a olhar para o teto. Não é por esperanças de um qualquer sinal sobrenatural mas pelo simples facto de uma queda graciosamente promovida e oferecida pelas infraestruturas da Fertagus, minha querida transportadora em ferro carris, me ter precipitado nas urgências de Santa Maria com o beneplácito competente e atento do INEM que me avisou e evitou que os estragos fossem bem piores.
Houve um médico que simpaticamente anteviu que os meus próximos meses seriam passados a olhar para o teto, já sem qualquer carga maliciosa que dantes, "olhar para o teto" podia acarretar. Entre TAC, RX, análises e previsões cheguei a antever-me no papel de super-homem, destronando Christopher Reeve na sua aristocrática e desportiva queda de cavalo.
Operado com notável eficiência pelo médico espanhol Dr. António Tirado, membro integrante da importante "equipa da coluna" do Hospital de Santa Maria, que me negou um final tão distinto como o simpático ator, empurrando-me para os tristes fim de dias que estamos condenados a ter uns com os outros.
Dobrar-me a espinha já devem ter aprendido que não vale a pena. Partir-me a espinha como aqui se vê já é outro negócio mais sério e principalmente mais doloroso.
É, portanto, todo partido que tenho a honra de enviar ao distinto Diário de Notícias esta crónica como há muitos anos já não me acontecia.
Espero que o texto chegue a tempo e a propósito, que os meus queridos leitores me revejam direito e com saudades, para da próxima vez nos podermos rir muito por esta e por outras que certamente nos espreitam ao virar de cada esquina.

                                     Joaquim Letria

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